Minha relação com a LEITURA e a LITERATURA é bem especial, vem desde antes de saber ler. Eu desconfio que o gostar de ler tem algo de genético, pois eu não aprendi a gostar de ler, eu já gostava de "ler" bem antes de aprender a ler! Complicado, né? Vou explicar: lá pelos meus 3, 4 ou 5 anos, eu pegava os gibis da Turma da Mônica de primos mais velhos e meus pais sempre compravam para mim também. Pedia para minha mãe ler para mim, mas quando ela não podia, eu ficava admirando os quadrinhos e tentando adivinhar o que aqueles bonequinhas estavam "falando" naqueles balõenzinhos, e com isso eu acabava exercitando a imaginação. Por coincidência ou destino, na escola em que fui alfabetizado usava-se a CARTILHA DA TURMA DA MÔNICA. Por já gostar muito dos personagens de Mauricio de Sousa, a minha alfabetização foi feita de forma prazeirosa e fui um dos primeiros aluninhos da turma a saber ler e escrever muito bem já no início do 2º semestre. Devo dar crédito também a minha querida professora de C.A. (Classe de Alfabetização) TIA RITA DE CÁSSIA, que foi um dos anjos que passaram em minha vida. Tenho uma enorme admiração pelo mestre MAURICIO DE SOUSA por ele ter me despertado o gosto pela leitura desde bem cedo, minha infância seria bem menos prazeirosa e lúdica se ele não existisse e com certeza eu seria outra pessoa, pior, hoje.

A época de volta às aulas era muito especial para mim por inúmeros motivos, mas especialmente pela compra dos novos materiais escolares (imagino que para os meus pais deveria ser um pesadelo financeiro, pois tenho também uma irmã um ano mais nova, então, era um pesadelo duplo!). Eu amava quando minha mãe voltava da tua trazendo os livros novos. Eu logo pegava o livro de COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO e devorava todos os textos!
Não lembro qual foi o primeiro livro que li na vida, mas um dos primeiros foi A ILHA PERDIDA, de MARIA JOSÉ DUPRÉ, editora Ática, da famosa Série Vaga-Lume. Creio que foi na 4ª série do 1º grau. Houve um concurso de redação na escola, e o prêmio foi esse livro. Foi a partir dele que eu comecei a amar a Série Vaga-Lume. Boa parte da minha mesada foi para a compra desses livros. Eu amava passear no centro comercial de Nova Iguaçu quando recebia minha mesada. E além das bancas de jornal para comprar os gibis da Turma da Mônica e da Disney (minha outra paixão em matéria de gibis), minha parada obrigatória era a PAPELARIA E LIVRARIA CASA MATTOS, que infelizmente não existe mais. A CASA MATTOS para mim era a FANTÁSTICA FÁBRICA DE LIVROS. Eu chegava e subia logo as escadas para o segundo andar, para ver, folhear e sonhar com os livros.

Devo destacar que foi da autora MARIA JOSÉ DUPRÉ o primeiro livro que me fez chorar, que me emocionou de uma forma como nunca antes havia sentido por livro algum até então: ÉRAMOS SEIS.
Da Série Vaga-Lume, eu li praticamente todos os livros publicados nos anos 80 e início dos 90. Não há nenhum autor que eu não gostasse, mas vou falar dos meus preferidos e que de formas diferentes transformaram minha vida:
* MARCOS REY - Foi a partir dos seus livros que aprendi a gostar do gênero ROMANCE POLICIAL. É desde sempre meu autor preferido! O MISTÉRIO DO CINCO ESTRELAS, UM CADÁVER OUVE RÁDIO, O RAPTO DO MENINO DE OURO, BEM-VINDOS AO RIO, SOZINHA NO MUNDO e BEM-VINDOS AO RIO são meus preferidos do autor. Dou destaque também a DINHEIRO DO CÉU, em que ele fugiu do gênero, criando uma história ficcional a partir de suas lembranças da juventude.
* LÚCIA MACHADO DE ALMEIDA - A autora me trouxe o gosto pelas histórias de FANTASIA e AVENTURA, através do seu mais conhecido personagem XISTO (AS AVENTURAS DE XISTO, XISTO E O PÁSSARO CÓSMICO e XISTO NO ESPAÇO, inesquecível a história de O CASO DA BORBOLETA ATÍRIA e o policial ESCARAVELHO DO DIABO, até hoje um dos meus melhores livros da vida.
* FRANCISCO MARINS - O autor me fez gostar de história do Brasil, através dos livros da SAGA DOS MARTÍRIOS, sendo O MISTÉRIO DOS MORROS DOURADOS o primeiro e melhor deles. Depois vieram A MONTANHA DAS DUAS CABEÇAS, e EM BUSCA DO DIAMANTE, todos com os mesmos personagens. Saber que havia aventura na época dos Bandeirantes para mim foi transformador! Sei que era uma visão heroica e romantizada dos bandeirantes, mas eu via como nosso legítimo faroeste brasileiro, os desbravadores do interior do nosso país.
* OFÉLIA E NARBAL FONTES - Seus livros também se passavam na época dos bandeirantes. E CORAÇÃO DE ONÇA foi o que mais me marcou, com um heroi que passou por mil aventuras e tem um quê de trágico também.
* LUIZ PUNTEL - Seu livro AÇÚCAR AMARGO me apresentou pela primeira vez a crítica e difícil situação dos "bóias-frias", trabalhadores das lavouras de cana-de-açúcar. Foi um dos livros que mais me fizeram refletir sobre a realidade e perceber que o gênero "Infanto-Juvenil" não é um gênero menor, como alguns pensam.
Livros de outras editoras marcaram também minha infância: A DROGA DA OBEDIÊNCIA e A MARCA DE UMA LÁGRIMA, ambos de Pedro Bandeira. Orígenes Lessa foi fundamental no meu gosto por ler, com MEMÓRIAS DE UM CABO DE VASSOURA, MEMÓRIAS DE UM FUSCA e suas traduções de inúmeros livros infanto-juvenis.


Algo que fez parte de minha infância foram os livros da antiga Editora Tecnoprint, atual Ediouro. Eu comprava suas revistas de palavras-cruzadas e no final vinha um cupom para comprar seus livros por reembolso postal, afinal, era um tempo pré-internet, comprávamos os livros pelo correio. Comprei muitos livros assim. Lembro que ficava na espectativa do correio me trazer todo mês o catálogo de livros da Ediouro/Tecnoprint. Eu escolhia de 6 a 8 livros, preenchia o cupom e ficava esperando chegar meu pedido na semana seguinte. Lá pelos meus 14 anos, comecei a fazer estágio no centro do Rio, e vivia sempre na livraria Ediouro da Rua da Uruguaia esquina com Rua da Carioca. Era como estar no paraíso! Da Tecnoprint eu destaco uma série de livros chamada "ENROLA & DESENROLA", meu primeiro contato com os chamados "livros-jogos", em que o leitor era o personagem principal da história, que era narrado na na segunda pessoa do singular. Os livros-jogos eram espetaculares, o leitor fazia suas escolhas ao longo da narrativa e dependendo dessas escolhas, ele era encaminhado para um ótimo ou péssimo final, sim, afinal o livro tinha vários finais, o que me fazia reler e reler e reler inúmeras vezes o mesmo livro, fazendo escolhas diferentes e conhecendo outros finais.

Na minha infância ainda não existia internet, Google, nada disso. As pesquisas escolares eram feitas pelos livros da biblioteca das escolas. E algo que tinha um grande status eram as ENCICLOPÉDIAS, em que eu viajava nos seus verbetes, afinal, ciências de uma forma geral eram um dos meus interesses. E a enciclopédia que marcou e criou essa curiosidade científica em mim foi a CONHECER, da Abril Cultural. Minha mãe tinha colecionado os fascículos, que eram vendidos semanalmente em bancas de jornal, e depois eram encadernados em capa dura, Essa enciclopédia era fartamente ilustrada e muito bem informativa. Pena que minha mãe teve que se desfazer dessa coleção...

O primeiro livro "adulto" que li na vida foi O NOME DA ROSA, de Umberto Eco. Via muito a versão em filme e gostava muito. Um dia, lá pelos meus 13 anos, entrei na livraria e vi esse livro e resolvi comprar. Confesso que foi uma leitura difícil para alguém com 13 anos, ainda mais porque tinha algumas passagens em latim, mas a história era impressionante e consegui chegar até o final.

Não sou uma pessoa muito religiosa, não sigo nenhuma religião em especial, mas não chego a me considerar um ateu ou agnóstico. Para quem pergunta, digo que sou cristão. Pois bem, eu sempre fui meio afastado de tudo o que se referia a religião, até porque eu tenho uma visão mais "científica" da vida, que bate de frente com certos dogmas religiosos. Com 15 anos, um amigo de estágio me emprestou um livro chamado "OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA", de um autor espanhol de nome J.J. Benítez. O livro narra uma suposta missão da Força Aérea Americana que leva ao passado, mais precisamente a última semana de vida de Jesus Cristo, para acompanhar e comprovar sua existência. O autor jura que a história é real e que lhe foi passada sigilosamente pelo major da Força Aérea America que fez parte da missão. Apesar de ser difícil de acreditar em viagens no tempo, o livro é tão rico em detalhes, os "personagens" são tão humanos e reais em seus defeitos e qualidades, o livro tem uma narrativa tão delicada e nos mostra um Jesus Cristo tão mais humano e crível que as diversas religiões nos mostram. É um livro, aliás, uma série de livros já que são 9 volumes, que nos mostra um Deus tão bom e generoso, uma divindade realmente paterna, que não nos exige templos nem rituais. É um livro que VIVENCIEI. Com certeza são os livros de minha vida, já que a série me acompanha por pelo menos 19 anos. É uma série polêmica, que tem a coragem de bater de frente com vários dogmas religiosos. Mesmo que toda essa história seja uma grandiosa ficção, eu desejo do fundo de minha alma que seja realmente verdadeira, ou que pelo menos esse Deus, Inteligência Superior, seja o nome que quizer dar, tenha inspirado esse autor a criar uma fantástica história com sua verdadeira mensagem de AMOR.

Por ser o gênero ROMANCE POLICIAL o meu preferido, não posso deixar de citar AGATHA CHRISTIE. Para mim, uma das autoras mais geniais que já pisaram neste planeta. E seu investigador belga Hercule Poirot o mais incrível dos personagens.
O último livro que me marcou muito foi MUTILADA, da autora Khady. O livro é um testemunho dessa autora que passou quando menina pelo cruel processo de excisão (mutilação do clítoris), cultura ainda presente em muitas tribos africanas, uma barbárie que vitimiza milhares de mulheres no continente africano. Leitura obrigatória.
Não pretendia que essa postagem ficasse tão imensa, mas gostando muito de ler e tendo quase 4 décadas de vida, centenas de livros me marcaram e me transformaram, uns deixando leves marcas outros marcando a ferro quente, mas todos importantes para mim.